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terça-feira, 24 de maio de 2011

Pensamentos; José Saramago

Cadernos de Lanzarote


" Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e
o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos.

E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os
Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas
privadas, mediante concurso internacional.

Aí se encontra a salvação
do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a
todos.
"

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148

no Blog WebClub: Cadernos de Lanzarote

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (7)




Feases bem ditas
Um café mais saboroso, com a leitura destas palavras
LN

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (6)

"Não tenho medo da morte.
Mas tenho medo
de não viver o bastante"

José

LN

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (5)

"O que nunca poderemos fazer
é sentar-nos a contemplar
o espetáculo do mundo
como espectadores "

Pilar

"Temos de eliminar a palavra
cansaço do nosso dicionário
pessoal. Para descansar,
temos a eternidade"

Pilar

LN

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (4)

Mais um pacote de açucar com mais uma bonita frase da Pilar.

" A morte é uma garantia,
um objectivo que vamos cumprir.
Por isso importa lutar pelo objectivo de viver"

PILAR

LN

sábado, 13 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (3)


Que belos cafés na companhia de Saramago
LN

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar (2)


Uma frase de Saramago, que mostra a sua faceta optimista em relação ao Homem.
Muito bonita esta frase.
LN

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Um café com Saramago e Pilar




Que bonita a frase da Pilar

Nos pacotes de café delta , que boa iniciativa.

Um café mais doce.

LN

domingo, 4 de julho de 2010

Carta de Saramago para a avó


Descobri esta Carta linda do Saramago à sua avó,
No BLOG WEBCLUB
E não resisti a copiar aqui para o Blog

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietnan é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa; já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (contaste-mo tu ou terei sonhado que mo contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são como as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila necessidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.


José Saramago, 14 de março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”.

LN

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Carta a Pilar

Carta a Pilar

Só isso se guarda: o amor e as palavras.

Cariño. Na hora da morte a língua some-se-nos para falar aos vivos mais amados por aquele que acaba de morrer. Ao lado do corpo de José contavas que uma amiga te dissera: "Faltam-me as palavras: Saramago levou-mas todas." A mim sobrou-me uma palavra da tua língua: cariño. Em português esta palavra não é um vocativo, uma declaração de presença - é um sentimento abstrato, uma espécie de amor de segunda, um pedido de desculpas por não ser mais do que isso. Exageramos nos sentimentos fracos e nas desculpas, deste lado da Ibéria. Nisso, o teu José era muito espanhol, mesmo antes de te conhecer. O amor começa sempre antes.

A televisão, que desdenha a literatura, convocou um desfile de escritores para falar de Saramago. Disseram-se coisas belas e verdadeiras: que este escritor recuperou o barroco do Padre António Vieira de uma forma moderna, em alegorias transbordantes de imaginação, instigando o desassossego do pensamento. Mas estas coisas belas eram sempre interrompidas pela pequena história da politiquice e da beatice: o subsecretário que entendeu vetar um livro do Escritor para um prémio, escandalizado com o seu Cristo demasiado humano. Que interessa a subpessoa diante da grandeza da obra? Que interessa a aflição das hierarquias do poder terreno da Igreja - penoso, vergonhoso, o texto do jornal oficial do Vaticano sobre o Nobel português, nesta hora que pedia respeito e compaixão - diante do entusiasmo divino com que milhares de católicos leram "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Caim"? Que interessa a mesquinhice humana na hora da morte do criador de "Ensaio Sobre a Cegueira"? Que importa o lugar onde hão-de ficar as cinzas? Os grandes escritores não se desfazem em cinzas, é isso que os pequenos poderes não lhes perdoam: o facto de serem imortais, e de continuarem a apontar-lhes o dedo e a desmanchar-lhes as poses, página a página, palavra a palavra.

José Saramago não tinha medo das palavras. Foi através delas que, como leitor, se fez homem, e depois - muito depois - como escritor, se fez livre. Creio que o facto de morar parte do tempo em Espanha, por amor a ti, o ajudou a ser cada vez mais livre. Mais do que isso: tenho a certeza de que o amor que viveu contigo, em ti, por ti, o tornou mais livre. Via-se nos olhos dele. Via-se que te amava com orgulho e admiração pelo teu percurso humano e jornalístico, pela solidez e autonomia da tua voz - porque tu, Pilar, nunca foste a mulher-sombra. Nem ele, honra lhe seja, alguma vez gostou de mulheres assim. Por isso as mulheres dos seus livros vivem entre nós como heroínas que nos incitam nos momentos de fraqueza - enérgicas, lúcidas, luminosas, buscadoras incansáveis da justiça e da alegria. Admiravas o escritor, correste para Lisboa ao seu encontro depois de leres essa elegia à cidade de Pessoa que é "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Olharam-se e ficaram um do outro, de imediato e para sempre. Esse vosso romance - que acenderia, de muitas maneiras e através de variados enredos, muitos livros de Saramago - tem-me servido de sol de recurso através dos variados temporais da existência. A própria biografia de Saramago, em particular o seu trajeto de escritor - tardio, lento e feliz - é uma lição e um exemplo, em tempos de pressas sôfregas e génios quinzenais.

Lembro-me desse momento fulgurante em que o Nobel foi anunciado, lá na Feira de Frankfurt - lembro-me das lágrimas de felicidade de Lídia Jorge, abraçando-me. Lembro-me de Agustina pedir lagosta e champanhe para comemorar esse Nobel - Agustina sobre a qual, como tu recordaste publicamente, Saramago escrevera páginas de louvor na "Seara Nova", nos idos de 60, quando era politicamente incorreto dizer que ela era uma escritora de génio. Lembro-me da forma como José partilhou o Nobel, dizendo-se herdeiro de uma tradição de grande Literatura e mencionando vários outros nomes de escritores de língua portuguesa seus contemporâneos que o mereceriam. Ele continuará a existir em ti, porque o amor tem o dom de permanecer debaixo da pele e no brilho dos olhos de quem o guarda. Só isso se guarda: o amor e as palavras. A coragem de os viver por inteiro. O amor e as palavras exigem coragem, cariño. Tu sempre o soubeste, como ele.

INÊS PEDROSA
Texto publicado na edição da Única de 26 de Junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

"Memorial do Convento" , um livro brilhante


Excerto da obra: Memorial do Convento

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras que só entre íntimos se confia.
Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça.
Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana.
Mas Deus é grande.
Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo colhidos pelos quatro camaristas de serviço.
A arca donde os retiram cheira a incenso, e os veludos carmesins que os envolvem, separadamente, para que se não trilhe o rosto da estátua na aresta do pilar, refulgem à luz dos grossíssimos brandões.
A obra vai adiantada. Já todas as paredes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêem as colunas sob a cornija percorrida de latinas letras que explicam o nome e o título de Paulo V Borghese e que el-rei há muito tempo deixou de ler, embora sempre os seus olhos se comprazam no número ordinal daquele papa, por via da igualdade do seu próprio. Em rei seria defeito a modéstia. Vai ajustando nos buracos apropriados da cimalha as figuras dos profetas e dos santos, e por cada uma fez vénia o camarista, afasta as dobras preciosas do veludo, aí está uma estátua oferecida na palma da mão, um profeta de barriga para baixo, um santo que trocou os pés pela cabeça, mas nestas involuntárias irreverências ninguém repara, tanto mais que logo el-rei reconstitui a ordem e a solenidade que convêm às coisas sagradas, endireitando e pondo em seu lugar as vigilantes entidades. Do alto da cimalha o que elas vêem não é a Praça de S. Pedro, mas o rei de Portugal e os camaristas que o servem. Vêem o soalho da tribuna as gelosias que dão para a capela real, e amanhã, à hora da primeira missa, se entretanto não regressarem aos veludos e à arca, hão-de ver el-rei devotamente acompanhando O santo sacrifício, com o seu séquito, de que já não farão parte estes fidalgos que aqui estão, porque se acaba a semana e entram outros ao serviço. Por baixo desta tribuna em que estamos, outra há também velada de gelosias, mas sem construção de armar, capela fosse ou ermitério, onde apartada assiste a rainha ao ofício, nem mesmo a santidade do lugar tem sido propícia à gravidez.
Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ãngelo, aquele arrebatamento de pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está guardada em arca à parte, e sendo esse O remate da construção lhe será dado diferente aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruído retumbante ajustam-se os ditos machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta.(…)


José Saramago, Memorial do convento, Lisboa: Caminho, 1982, p.11



LN

sábado, 19 de junho de 2010

"Nasce Afrodite", Pedro Barroso canta José Saramago



NASCE AFRODITE, NASCE O TEU CORPO
Poema muito bom...

MENINA DOS OLHOS D'ÁGUA - Pedro Barroso


Menina dos olhos de Água

Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

(música e letra de Pedro Barroso
in álbum "Cantos da borda d'água" 1985)

LN

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Não ao Desemprego , de José Saramago

Diante das manifestações que se estão preparando em toda a Europa, de protesto contra o desemprego, escrevi, a pedido de um grupo de sindicalistas, o texto que a seguir se reproduz.

Não ao Desemprego

A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.

Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?

Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.

E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?

Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?

O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.

Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.

Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas.

José Saramago
LN

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Crónica Saramago


Saramago , Mário Crespo , Jornal de Noticias 26/10/2009

" Porque vivo no país de Saramago que tem como pátria a minha língua. Porque viajo com ele em jangadas de pedra que cruzam atlânticos e em passarolas que passam por cima da profunda maldade dos banais. Porque saltito pelas cortes de reis passados e impérios futuros montado no elefante mágico que ele nos deu para impressionarmos o universo. Porque sou também da pátria dele e sei que ele há-de viver por muitos anos nas ruas da minha cidade e ocasionalmente eu posso cruzar-me com ele, como a Joana Latino, minha colega, disse que gostava de fazer quando o entrevistou em Lanzerote. Porque ele vai continuar a ajudar-me a entender mais mundos que ainda não foram descobertos e que ele já conhece, porque viveu sempre na terra de amanhã onde eu nunca entrei. E que mos vai dando um a um. E eu fico mais rico. Porque ele vai continuar a começar os seus livros com dedicatórias encantadas com os hinos à vida de infinita beleza que só ele sabe compor. "a Pilar, a minha casa". Porque "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo" como disse Ricardo Reis no ano da sua morte. Porque só há um país no mundo inteiro que tem um José Saramago e é o meu país. E o dele. Graças a Deus. "

LN

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crónica Muro do Fundamentalismo, de Inês Pedrosa


O Muro do Fundamentalismo

" "Caim", de José Saramago, é um romance, isto é: uma ficção literária. É, além disso, um bom romance, isto é: uma narrativa de grande beleza, que rasga o tecido dos saberes sossegados e ergue um vendaval de perguntas. No lançamento deste romance, no "Escritaria" de Penafiel, evocando o Padre António Vieira, Saramago recordava essa coisa só aparentemente simples: escrever é "conhecer o sítio das palavras". A sua disposição exacta na frase.
Escrever é escolher, e a escolha pressupõe conhecimento das múltiplas possibilidades em jogo. Saramago debruçou-se sobre a Bíblia, o livro que determinou e determina ainda a visão do mundo que nos enforma, e interrogou as escolhas de deus - assim, com a mesma letra minúscula que usa para cada membro da humanidade por ele criada, porque é preciso abandonarmos a maiúscula da reverência quando queremos interrogar genuinamente. E viu-se mergulhado num dilúvio de vozes escandalizadas - algumas, poucas, de forma transparente, e a maior parte delas disfarçando o escândalo nas trincheiras da análise intelectual de segundo ou terceiro grau. "

" O escritor leu e releu a Bíblia e verificou uma evidência: que ela é um "manual de maus costumes, um catálogo de crueldades". Aliás, Saramago não foi, nem pretende ser, a primeira alma a ter feito essa verificação: sim, a Bíblia é também, entre outras coisas, esse catálogo. Há cerca de dois anos, Christopher Hitchens publicou "Deus não É Grande - Como as religiões envenenam tudo" e Fernando Savater publicou "A Vida Eterna", dois excelentes livros sobre a questão da maldade divina - ou de como os homens inventaram deus para se matarem uns aos outros. Na época, não vi nenhum dos que agora se assanham contra Saramago contestar as teorias idênticas de Hitchens ou Savater. É curioso que um romance, mesmo antes de ser lido, cause um terramoto que nenhum destes ensaios causou."

"Saramago tem o direito de ler na Bíblia o que lá está escrito. Cada palavra existe na frase para dizer alguma coisa - é aquela palavra e não outra que lá está. Todo o livro digno desse nome traça um pacto sagrado com a justeza de cada palavra. Escreveu Walter Benjamin: "A arte de narrar tende a acabar porque o lado épico da verdade - a sabedoria - está a morrer." A obra de Saramago prova que esta morte não está iminente.
E conseguiu já um feito notável: trazer para o horário nobre da televisão o debate sobre os fundamentos da nossa civilização, o sentido da vida e da morte - em vez da politiquice e do futebol que são os únicos debates constantes neste nosso mundo de crentes."


Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009
LN

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Abjurar

A Abjuração no Caderno de Saramago

Abjuração na Wiki

Será que o Saramago ainda se reclama da mesma ideologia que defendeu em grande parte da sua vida? Será que ainda continua a apoiar o PCP? Nas últimas Autárquicas foi apoiar um candidato à Camâra de Lisboa que era o candidato do PS...
É legitimo, outros pessoas de esquerda o fizeram. Infelizmente muitos pensam que é mais útil apoiar uma candidatura que dá acesso ao poder, do que uma boa candidatura de esquerda (do Ruben Carvalho) , que só vai eleger vereadores e vai para a oposição na Câmara.
Puro raciocinio de "do mal o menos". Porque assim a Câmara não vai parar às mãos da Direita.
A continuar assim a nossa sociedade vai encaminhar-se para um sistema de bipartidarismo tipo Americano com Democratas e Repúblicanos.

Um Post Pessoa e Saramago em TRAVNIK no Blog Cravo de Abril em que um Bósnio fala sobre Fernando Pessoa e Saramago.
LN

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Saramago sobre Gaza

Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões que a nossa segurança sempre estará assegurada pelas constituições que nos regem, podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. As imaginadas manifestações dos anos trinta seriam reprimidas com violência, em algum caso com ferocidade, as nossas, quando muito, contarão com a indulgência dos meios de comunicação social e logo entrarão em acção os mecanismos do olvido. O nazismo alemão não daria um passo atrás e tudo seria igual ao que veio a ser e a História registou.
Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.

No Blog Caderno de Saramago
Imaginemos , José Saramago
LN

domingo, 16 de novembro de 2008

MARX , SARAMAGO

“O sistema de crédito centralizado nos bancos nacionais e os detentores do grande capital que o rodeia, dá a esta classe de parasitas um poder fabuloso, não só para controlar os capitalistas industriais, mas também para intervir directamente na produção da maneira mais perigosa. Esta gente nada sabe sobre produção e nada tem a acrescentar sobre isso”.

Karl Marx, O Capital, vol.3, cap.33


" Em todo o mundo, os direitos humanos não contam nada. São, como diria Hitler, que nem 'papel molhado' " ... " Trinta direitos estão consignados ali e, ao lê-los, ou desatamos à gargalhada ou a chorar"

disse o Nobel da Literatura, em encontro comemorativo do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, realizada em Lisboa.

José Saramago, D.N.(hoje)
PARABÉNS
JOSÉ
SARAMAGO
por + 1 aniversário (86 velas para apagar)
2008 - 86 = 1922 ; Nasceu em 1922

LN

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Nelson Mandela, primeiro Presidente negro sul-africano, felicita Obama


O primeiro Presidente negro da África do Sul, Nelson Mandela, felicitou esta quarta-feira Barack Obama pela vitória nas presidenciais norte-americanas e acrescentou que esta escolha é um exemplo de que todos podem «sonhar» em mudar o mundo.

«A sua vitória demonstrou que ninguém, em todo o mundo, deve ter medo de sonhar em mudar o mundo para o tornar melhor», escreveu Mandela numa carta dirigida ao senador do Illinois, na qual lhe desejou também «força e coragem» para os próximos anos.
«Estamos convencidos de que conseguirá finalmente realizar o seu sonho de fazer dos Estados Unidos da América um parceiro integral na comunidade de nações, que se consagra à paz e à prosperidade para todos»,acrescentou o herói da luta contra o «apartheid» e prémio Nobel da Paz.
Mandela afirmou«confiar que combaterá igualmente e em todo o lado o flagelo da pobreza e da doença», sublinhando que aplaudia o seu «compromisso para com a paz e a segurança no planeta».

No final de Julho, Barack Obama agradeceu a Nelson Mandela, numa mensagem por ocasião do 90º aniversário, por ter demonstrado que «ninguém tem que aceitar o mundo tal como é, que pode ser refeito como devia ser».


Imagem: Atlas carregando o globo ás costas - Mitologia Grega


E do Blog "O Caderno de Saramago" , um BLOG IRMÂO do nosso;

" E, contudo, é disso precisamente que se trata. Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio, esse garrote com o qual, inutilmente, se pretendeu vergar a vontade do povo cubano."

"Que não se pode fazer tudo, assim de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas, por favor, senhor presidente, faça ao menos alguma coisa."

em "Guntanamo" , O Caderno de Saramago



Uma noticia do site TSF

Amnistia dá 1oo dias a Obama para "Reparar os Estragos" de Bush.


[Miguel: Atena era uma deusa grega, deusa da Sabedoria e da Coragem, que se transformou numa cidade, como podes ver na Wikipédia ]
LN