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domingo, 30 de agosto de 2009

Morais e Castro (1939-2009)


Quem, por parte do PCP e inspirando-se em Bertold Brecht, disse que com a morte de José Morais e Castro se perdeu “um dos imprescindíveis”, foi tão feliz nessa classificação, que me dispensa de tentar dizer mais.

Não sendo eu “do teatro”, quase sempre que as minhas cantigas se cruzavam com Morais e Castro ele estava generosamente fazendo de apresentador da sessão, ou algo assim igualmente afastado do que foi a sua paixão maior, depois da liberdade, o teatro. Sempre grande companheiro, sempre disponível, sempre com o ar simples de quem não tivesse, por exemplo, ajudado a renovar o teatro em Portugal, nomeadamente no Grupo 4, que fundou com os seus amigos Rui Mendes, João Lourenço e Irene Cruz.

Apesar de todo o trabalho desenvolvido em 50 anos de teatro, quiseram a vida e as opções artísticas das nossas televisões, que Morais e Castro se tornasse conhecido do grande público pela participação em novelas e, sobretudo, pela série do “Menino Tonecas”, onde o seu personagem de professor pretensamente severo (sem nunca conseguir sê-lo realmente), fez rir milhares de portugueses, que na sua maioria nunca souberam que também lhe deviam um pouco a possibilidade de rir assim, sem medo, sem censura prévia, em liberdade.


Obrigado, Zé!

No Blog Cantigueiro, do Samuel
LN

domingo, 19 de julho de 2009

Palavrões

Ontem à noite no Largo de São Carlos , o actor Miguel Guilherme disse este texto "Poder libertador dos palavrões" do Miguel Esteves Cardoso.
É muito engraçado o texto e a forma como o actor Miguel Guilherme o diz.

SssssHhhh !?

"Já me estão a cansar... parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar... mas dialogar com caracter! O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária!

Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante.
Dizer "Tenho uma verruga no caralho" é inadmissível. No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para a CBR 900' não lembra ao "caralho", não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação.
Quando uma esferográfica não escreve num exame de Estruturas "ah a grande puta... não escreve!", desagrava-se a mulher que se prostitui.

Em Portugal é muito raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação "Não sejas conas", significa que o parceiro pode não jogar um caralho de GT2. Nada tem a ver com o calão utilizado para "vulva", palavra horrenda, que se evita a todo o custo nas conversas diárias.
Pessoalmente, gosto da expressão "É fodido..." dito com satisfação até parece que liberta a alma! Do mesmo modo, quando dizemos "Foda-se!", é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada. Por ex.: quando o Mário Transalpino "descia" os 8 andares para ir á garagem buscar a moto e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves... "Foda-se"!! não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espirito como um tranquilo "Foda-se...!!". O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. Os palavrões supostamente menos pesados como "chiça" e "porra", escandalizam-me. São violentos.

Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora, "ai o caralho...", sem que daí venha grande mal à família, um chiça", sibilino e cheio, pode instalar o terror. Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit-Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar "onde é que se meteu a puta da porca...?", está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades.

Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como "vagina", "prepúcio", "glande", "vulva" e escroto". São palavrões precisamente porque são demasiadamente ínequívocos... para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que "fica na vagina da mãe" ou "no ânus de Judas". Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como "fellatio" e "cunnilingus"? Tira a vontade a qualquer um! Da mesma maneira, "masturbação" é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular "esgalhar um pessegueiro", com a ressonância inocente que tem, de um treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil. Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso."

Miguel Esteves Cardoso

LN

sábado, 18 de julho de 2009

Festival ao Largo - Teatro

Este fim de semana últimos dias do Festival ao Largo.
Esta semana Programa de Teatro.
Site http://www.festivalaolargo.com/#/dia-18/

18 Julho
Recital e Tal
Textos Satíricos, numa selecção de:
Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos
Actores: Rita Blanco, Miguel Guilherme, Diogo Dória
Produções Fictícias


Recital e Tal, um espectáculo das Produções Fictícias, resulta da compilação de textos satíricos feita por Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos. Rita Blanco, Miguel Guilherme e Diogo Dória dão voz a alguns dos textos mais humorísticos da nossa literatura, tão provocantes quão actuais.

19 Julho
Amor
de André Sant'Anna
Encenação: Marcos Barbosa
Actores: Flávia Gusmão
Produção: Teatro Oficina de Guimarães


Partindo do conto 'Amor' de André Sant’Anna, a ideia é construir um espectáculo onde uma mulher transforma um texto furiosamente masculino e brasileiramente português, numa fuga para a frente que faz desta literatura teatro, e que neste modo de fazer dizendo, nos encontremos todos com estas palavras que dizem o amor.
Marcos Barbosa


Amor pode ser lido como uma visão planetária, simultaneamente religiosa (no sentido de religar todas as coisas, nem que seja pelo sangue que está por trás de tudo) e anti-religiosa (contra toda a hipocrisia das igrejas, sejam elas quis forem, a começar pelos media).
Bernardo Carvalho

Concerto de Encerramento do Festival ao Largo
Quarteto Vianna da Motta


LN

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma Esperança

Um conto de Clarice Lispector muito giro, que faz parte do espetáculo de teatro "Que Mistérios tem Clarice" de Rita Elmôr , brasil, que eu assisti dia 2 de Abril na Malaposta.

Conto Uma Esperança

foto deste blog

http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1467902

" Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira!
"

Ler a continuação neste site http://substantivolatil.com/archives/um-conto-de-clarice.php
ou no site Clarice Lispector http://claricelispector.blogspot.com/

LN

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Calendário de Pedra

Na Malaposta na sexta-feira dia 3 de Abril fui ver teatro.
A peça chama-se "Calendário de Pedra" de Denise Stoklos.

É muito boa esta actriz. É um monólogo muito intenso e ela faz um trabalho de expressão corporal fantástico. Vale muito a pena conhecer esta actriz.

Amanhã ainda há mais aqui na zona de lisboa!!! A Não perder...

Ou a Encontrar!!

Ver no Blog http://missaodobrasiljuntoacplp.blogspot.com/2009/04/hoje-denise-stoklos-no-centro-cultural.html

LN

domingo, 5 de abril de 2009

Dia Mundial do Teatro - Augusto Bual

Mensagem lida no Teatro da Malaposta no dia 27 Março Dia Mundial do Teatro de Augusto Bual.

Link Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2009 ,
no Blog Animação Sociocultural e Insularidade (do Machico).

A parte final...

" Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

LN

quinta-feira, 2 de abril de 2009

HOJE TEATRO na Malaposta e Poesia

TEATRO
QUE MISTÉRIOS TEM CLARICE
De Rita Elmôr
Brasil
2 DE ABRIL , QUINTA-FEIRA , 21H30
AUDITÓRIO
A atriz Rita Elmôr foi indicada ao premio Shell de melhor atriz por sua interpretação de Clarice Lispector no espetáculo Que Mistérios tem Clarice. Como um recital, o espetáculo reúne fragmentos de contos, entrevistas, cartas, reflexões e crônicas de Clarice Lispector. O espetáculo busca as vivências mais cotidianas da escritora que tinha uma extraordinária capacidade de abordar o universo feminino a partir de suas próprias experiências. Rita Elmôr ressalta que o
espetáculo destaca os textos em que Clarice falava sobre si mesma, sua relação com a família e com o ato de escrever. Confissões explícitas em seus relatos escritos entre 1968 e 1973.
A encenação de Luiz Arthur Nunes, foi centrada no texto e privilegiou a palavra. A montagem se propõe a levar o espectador numa viagem imaginária para dentro da casa da escritora, conversando com ela, compartilhando momentos íntimos e desfrutando de sua inteligência,
delicadeza e ironia, num clima de mistério e fantasia.
Que mistérios tem Clarice é um monólogo com textos de Clarice Lispector que privilegiam o humor e a intimidade da escritora. Quando decidimos quais seriam os textos do espetáculo, percebemos que no humor de Clarice havia um tema recorrente: o espanto com a fragilidade humana. O público ri da empregada que enlouquece, mas pouco tempo depois percebe que
ela não está muito distante de nós, ou pelo menos não o quanto gostaríamos que estivesse. Os personagens de Clarice são conduzidos ao nosso encontro e nos vemos ao avesso no misterioso espelho Clariceano. A epifania acontece no final da peça, quando entram os textos sobre a morte. Clarice fala do desejo de encarnar num corpo jovem para ter a experiência de ler seus próprios livros como uma leitora comum e interessada sem saber que foi ela própria que os escreveu.

TEATRO POESIA
ELA UMA VEZ
Poesia em Cena
Próxima Estação - Associação Cultural - Portugal
2 DE ABRIL , QUINTA-FEIRA , 22H00
CAFÉ-TEATRO

Ela uma vez… são histórias, as nossas histórias, invenções, decepções.
Elas gritam, despem-se, deixam-se amar. Inventam histórias com arroz doce e sonham com luas com asma. Mascaram-se de femme fatal, reinventam-se em Dudu das Águas, vestem vestidos vermelhos e vagueiam perdidas sem rumo.
Fazem juras, rezas, poemas de amor. Revoltam-se, resignam-se e lutam por existir. Olham-se ao espelho, aceitam-se, caem e morrem muitas vezes durante a vida, esperam noivos que nunca chegam e escrevem manifestos. Acreditam em anjos, em amores utópicos, desígnios, mergulham no mar das suas próprias lágrimas, tecem ladainhas, murmúrios, canções.
Despromovem exigências, pedem pouco, "amores feinhos", a fome…
Elas são as palavras que contam, as histórias que vivem. Para mim Elas têm muitas caras, muitos nomes, chamam-se marias, adélias, adílias, elisas, joanas, martas, anas, paulas, irenes, teresas, clarisses, cristinas, marinas, natálias…
Porquê falar sobre mulheres? Porquê a poesia? Porquê partir das suas palavras para criar um imaginário teatral? Clarissa Pinkola Estés em "Mulheres que correm com os lobos" diz que as histórias são um bálsamo, que são elas que conferem "movimento à nossa vida interior".
Desde cedo senti que as palavras dos outros funcionavam como explicação, como legendas à minha própria vida, tantas vezes completamente indecifráveis para mim. Cresci com palavras, aprendi a combiná-las e a aceitar pacífica e deslumbradamente o efeito que elas tinham sobre mim.
É esta a dívida de gratidão que tenho para com esses escritores, e em especial para com estas poetisas que tão gentilmente acolheram o nosso projecto e nos ofereceram as suas palavras para que viajássemos nelas…

HOJE A Não Perder... (www.malaposta.pt)
LN