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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DEUS anda cá , texto de José Luis Peixoto



Afinal, não era preciso chamá-lo. Ja cá estava.

Eles dizem que Deus vê tudo o que fazemos. Vê o obsceno, vê o repugnante, vê o miserável. Deus vê o invisivel. Se existir céu e inferno, fico contente por ti , mas, por mim, sinto um certo receio. Repara , eles não dizem que Deus vê algumas das coisas que fazemos, não dizem que Deus vê apenas aquilo que é mais interessante ou susceptivel de ser considerado na equação céu/inferno. Não, eles dizem que Deus vê tudo o que fazemos: tudo. Quando dormimos , Deus olha pacientemente para nós. Já olhei para ti enquanto dormias. Compreendo que Deus não se canse de fazê-lo. Também quando esperamos , Deus assiste à nossa espera. Também quando lavamos o carro numa estação de serviço.
Também quando passeamos no jardim ao domingo.
Ainda assim , quero pedir-te que não imagines Deus como um velho reformado, sem vida própria , submerso em memórias, sósinho, sentado num cadeirão gasto, a ver televisão numa sala com os estores corridos. Nada é assiim tão simples. Nem mesmo esse velho reformado é assim tão simples. Deus não vê apenas, Deus sabe. Ao contrário de mim, Deus não se detém perante o teu rosto, tentando perceber se queres ou não queres, se gostaste ou não gostaste, tentando perceber o que significa aquilo que dizes e aquilo que insistes em calar. Deus sabe a distância precisa entre a ponta do teu nariz e o z desta palavra: nariz. Sabendo tudo , Deus sabe muita informação desnecessária. Sabe tudo o que sabemos e tudo o que não sabemos. Quando estamos errados, Deus sabe detectar o erro, sabe corrigi-lo e sabe todas as possibilidades de resolução do problema, sem erro, com erro e com todos os erros possíveis.
Deus é muito mais exacto do que a matemática.
Melhor do que nós, Deus consegue entender a razão de cada gesto porque conhece todos os pormenores da sua história e relaciona-os através da verdade. Deus consegue ver o passado com a mesma nitidez absoluta com que olha o presente. Nas grandes multidões, nos apertos antes da entrada nos estádios, nos concertos, eles dizem que Deus está lá a seguir cada pessoa e, para a atenção de Deus, cada um desses indivíduos é um mundo inteiro e completo. Eles dizem que Deus só pensa em nós. Passa todo o tempo a ver-nos ppor dentro e por fora. Testemunha cada episódio da luta que travamos com os nossos instintos, com os nossos impulsos e com os impulsos que surgem no nosso caminho. O nosso caminho não é uma estrada. Não sabemos o que é. Às vezes , parece que Deus nos colocou aqui como ratinhos num labirinto e, enquanto tira notas, espera que encontremos a saída. Nascemos um dia.
Chegámos de onde não sabíamos nada.
E, consuante o que encontrámos, fomos aprendendo. Eles dizem que Deus assistiu a todos esses momentos. A sua mente não divagou, não se desinteressou. Eles dizem que Deus nos vê desde o início, desde quando não sabiamos nenhuma palavra. Eles dizem que Deus nos viu nascer. Eu também te vi nascer. Essa é uma das experiências que partilhei com Deus. Sabes, apesar de estarem quase a passar doze anos sobre esse momento, também eu o consigo ver ainda com nitidez absoluta. Acredito que nunca se apagará de mim. Ao contrário de Deus, eu sempre andei longe, o meu olhar foi espaçado, mas acredita, filho, nunca te esqueci, nunca deixaste de ser parte de mim. Não foi por querer que não pousei o cobertor sobre o teu peito antes de dormires, não foi por querer que nã brinquei contigo assim que acordaste. Demorará até que entendas, mas esperarei o tempo que for necessário.
Se Deus é pai como eles dizem, então deixa-me contar-te um pouco do amor que Deus tem por ti:
Deus acredita que o amor que sente por ti é maior do que ele próprio, Deus acredita que os lugares onde está não são todos porque tem a certeza de que o amor que sente por ti é maior do que todos esses lugares, Deus acredita que não sabe tudo porque o amor que sente por ti é maior que tudo.
Sendo teu pai, Deus também é teu filho, filho.

José Luis Peixoto
do livro "Abraço"

sábado, 12 de junho de 2010

A importância de falar a Verdade

"Aliança"
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

— Você não sabe o que me aconteceu!

— O quê?

— Uma coisa incrível.

— O quê?

— Contando ninguém acredita.

— Conta!

— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

— Não.

— Olhe.

E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.

— O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.

— Que coisa - diria a mulher, calmamente.

— Não é difícil de acreditar?

— Não. É perfeitamente possível.

— Pois é. Eu...

— SEU CRETINO!

— Meu bem...

— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

— Mas, meu bem...

— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:

— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:

— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

— O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.

Luis Fernando Verissimo


NO BLOG WebClub (2008)
LN

terça-feira, 11 de maio de 2010

O universo tinha o epitáfio naquela equação


" A terceira gravação pedida foi a de um rangido, ou, mais exactamente, a da brusca inflexão (em Sol menor) da pena de aparo de aço de Rudolf Julius Emmanuel Clausius no instante em que essa pena escreveu o n na exponencial menos x à n-ésima potência na equação da entropia.
(...)
À n-ésima potência. A pena conservava-se suspensa por cima da folha de papel e, por um momento, a atenção de Clausius deambulou pelo labirinto heráldico da marca-de-água. A equação era válida. Contra toda a razão. Contra a poderosa respiração de vida. Num despreocupado desafio às formas verbais do futuro. Formalmente, a álgebra não era senão a demonstração, ao mesmo tempo abstrata e estatística, da irrecuperabilidade da energia calórica ao transformar-se em calor, do grau de perda registado em todo e qualquer processo térmico e termodinâmico. Seria assim que Clausius intitularia e descreveria o seu escrito ao enviá-lo para as acta da Academia de Ciências da Prússia (Secção IV: Ciência Aplicada). Mas o que ele fitava agora - e a sensação era bastante mais remota, mais indiferente do que a da sua padecente gengiva - era a determinação, irrefutável, da morte térmica do universo. A função n menos x não era reversível. A entropia implicava a conclusão e a transmutação da energia despendida numa estase fria. Um estado estático, um frio para além do que se podia conceber. Por comparação com o qual a nossa própria morte e a decomposição da nossa carne tépida mais não são do que um vulgar carnaval. O universo tinha o seu epitáfio naquela equação. No princípio fora o Verbo; no fim era a função algébrica. Uma pena de aparo de aço, comprada dentro de um estojo de cartão na Kreutzner, a papelaria universitária, escrecera finis sob a soma e a totalidade do ser. Ao traço descendente para a direita daquele n , seguia-se, não uma treva infinita, que ainda é, mas o nada, um zero insondável. Distraído, Clausius começou a fazer um traço por debaixo da equação. Mas o aparo tinha secado."

Desert Island Discs , "Provas e três Parábolas", George Steiner
Livro publicado pela Gradiva

LN

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Parem tudo que o PAPA vem ai...(1)

"Provas e três Parábolas " - George Steiner -Editado pela Gradiva

Excerto de uma conversa
Um zumbir como de abelhas, distante.
- Mas o Mestre, Eleazar filho de Eleazar, no seu comentário de 1611, disse...
- Que Akhiba, que o seu nome brilhe na eterna glória, se enganara...
- Quando escreveu que Abraão era inteiramente livre, um homem em liberdade , o pai das liberdades, quando Deus, bendito seja o Seu Nome indizível, o chamou para que levasse o rapaz, Isaac, ao lugar do holocausto.
- Com isto queria Akhiba dizer que os mandamentos de Deus são ditos ao espírito do homem quando o seu espírito goza da condição de soberania sobre a sua própria vontade, e que os mandamentos que se dirigissem aos que foram feitos escravos ou se extraviaram seriam mandamentos ocos.
- Ao que Eleazar, filho de Eleazar, o de Cracóvia , retorquiu...
- «Que liberdade é a do homem perante o que ordena o Todo-Poderoso?» Quando Ele manda, a nossa liberdade é a obediência. Só o servo de Deus, o servo absoluto, é um homem livre.
- «Não é assim» , foi o que me disse Baruch, o de Vilnius. «Não é assim, Quando Deus ordenou a Abraão, nosso pai, que levasse Isaac, seu filho unigénito, ao Monte Moriah, parou à espera de uma resposta. Abraão poderia ter dito: ' Não.' Ele poderia ter dito: 'Deus Todo-Poderoso, santificado seja o Teu Nome. Estás a tentar-me. Estás a pôr no meu trilho a tentação suprema, que é a obediência cega e irreflectida. Tal é a obediência que reclamam o Dragão Baal, os deuses ocos com cabeça de cão dos templos egípcios. Tu não és Moloque, devorador de crianças. O que agora esperas de mim é uma recusa amorosa.» Assim disse Baruch , meu mestre.
- Houve três dias de jornada a caminho da montanha. Durante esses dias Abraão não falou a Isaac...
- Nem a Deus. Que continuava atentamente à escuta. À espera de ouvir a resposta: «Não.» Cuja paciência era infinita, e que estava entristecido. Eis o que ensina Baruch, na nossa schul de Vilnius, onde a amendoeira...
- Isso é insensato. A presciência de Deus é absoluta. À escuta de Abraão , Ele! Sabia que o Seu mandamento seria obedecido, que não cabia ao homem pô-lo em questão. Eu conheci Baruch, o teu mestre. Era tão subtil, que nas suas mãos as palavras tornavam-se areia.
- Mas Deus, bendita seja a fímbria do Seu Nome inefável e as vestes do fogo da Sua glória, não confiava inteiramente em Abraão.
- Outro louco.
- Não . Escuta-me. A confiança de Deus em Abraão não era completa. Deixa-me expor o meu pensamento. Não me interrompas. Se Deus estivesse plenamente certo de que Abraão deixaria cair o seu braço sobre o rapaz, teria deixado consumar-se o sacrifício. E teria ressuscitado Isaac. Acaso não se diz que Deus pode despertar os mortos? Ao pôr um carneiro nas sarças, ao salvar a criança, deixou na incerteza a obediência última de Abraão. Não nos ensinou Gamaliel, o Cabalista, que há momentos, aberturas no universo, em que Deus interroga a Sua própria presciência, em que o Anjo do Desconhecido, do sem nome, atravessa a luz do ser?
- Gamaliel, o herético. O feiticeiro e alquimista de Toledo...

Para o Papa ler , e se quiser comentar , aqui no Blog ,
quando estiver de passeio aqui em Portugal, e estiver um pouco aborrecido com as peregrinas e penitentes que lhe vão encher as ruas.

LN

terça-feira, 6 de abril de 2010

ContoPúblico - Sumo


Iniciativa engraçada do jornal Público
Como participar: O PÚBLICO convidou Gonçalo M. Tavares a iniciar um conto que irá ganhar forma com a contribuição dos leitores. Num máximo de mil caracteres, envie-nos um texto que dê seguimento à proposta do escritor.
Ao longo de um ano (até 5 de Março de 2011), o conto irá crescendo à medida da sua imaginação. Cada leitor pode enviar um máximo de dez textos durante a iniciativa. As contribuições devem ser feitas a partir do último contributo. Os textos a publicar serão escolhidos pela redacção do PÚBLICO.

#1
Gonçalo M. Tavares

05-03-2010

Dois lutadores de sumo. Treinaram vinte anos. O seu peso enorme, os rostos ameaçadoramente contidos. Imóveis, os dois corpos. Prontos para a acção.

#2
António Ruivo, Leiria

08-03-2010

Cada um visava o outro antecipando na sua mente cada movimento, Olhos nos olhos, o combate psicológico começara semanas antes, quando o de porte menos imperial desafiara o campeão dos campeões.
Kimatuto encarou o adversário como um tigre encara a sua presa. Na sua mente surgiam imagens de outros combates. Ainda não era hoje que o seu percurso de invencibilidade iria terminar. Era e continuaria a ser o rei do tapete.


#3
João Tibério, Queluz

13-03-2010

Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia incessantemente para si mesmo. Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia. Continuaria a ser o rei do tapete. E, contudo, nem um músculo se mexia. Continuaria a ser o rei do tapete mesmo apesar de o forte embate que sofreu do seu adversário quase o ter atirado para fora. Continuaria a ser o rei do tapete mas precisava mesmo de reagir porque o corpo insistia em não se mexer. Era a primeira vez que tal lhe acontecia. Era a primeira vez que lutava desde a morte daquele estranho na sua rua. Onde não reagira. Quando o devia ter feito.

#4
Paulo Gonçalves, Porto
14-03-2010


A multidão vociferava ao longe o eco de uma multidão. Na sua cabeça a imagem do homem a esvair-se em sangue enquanto tentava dizer-lhe alguma coisa que não conseguia entender. Aproximara o ouvido aos seus lábios ensanguentados mas a única coisa que conseguira perceber era algo parecido com "procurem o dezanove". Não decifrara de imediato. Só no escuro da noite, dando voltas na cama na tentativa de dormir, conseguira juntar os sons silabados, omissos, até obter aquele estranho apelo. E igualmente o apelo dos seus olhos, numa névoa a esconder um último brilho antes de se apagar. Morrera nos seus braços e compreendera a suave doçura dum corpo acabado de morrer. Uma imperceptível desistência.

#5
Céu Guitart, Azeitão
15-03-2010


O momento do nascimento e o momento da morte. Dois momentos de ruptura que se ligam e nos ligam definitivamente. Ele morrera nos seus braços e por isso agora passaria a fazer parte de si. Como um filho.
Tentara deixar de pensar nisso mas não conseguia. Sentia-se agora responsável por ele. Irremediavelmente. E não desistiria enquanto não descobrisse o que era "o dezanove". Mesmo que se lhe esgotassem os únicos momentos de descanso de que usufruía, que eram os que passava à noite, na verdade já de madrugada, junto da única pessoa que partilhava com ele o calor da sua existência.

#6
Guilherme Vaz, Porto
17-03-2010


Esta fracção de pensamento quebrou-se quando subitamente sentiu as mãos do adversário no mawashi e os pés a flutuar.
O sal que espalhou pelo dohyō, os cânticos do gyōji, o espaço circular violentamente contido que resumia a sua existência física e espiritual há 20 anos, repetiu nessa noite com a intensidade consciente de algo que se faz pela última e derradeira vez.
Com as pregas profundas da sua obesidade comprimidas às do opositor, sentiu-se levar violentamente para fora do recinto sagrado. Caiu humilhado, e sem levantar a cabeça pensou: "Acabou. E agora?...", e um número voltou-lhe à memória... "dezanove"


#7
Manuel Lopes, Lisboa
18-03-2010


Na sua boca, sentia o amargo da derrota. Todos os feitos anteriores seriam rapidamente esquecidos. A fama, efémera, não passaria de uma ténue recordação de um passado glorioso.
Um braço repousou sobre o seu ombro. Olhou para trás e viu uma figura familiar. Franzino, um homem de dentes desalinhados, amarelecidos pela sucessão de cigarros que aspirava durante o dia, sussurrou-lhe: "Estou contigo. Não cairás sozinho." O seu primeiro treinador, o homem que apesar da sua pobreza o retirou de um orfanato e acreditou nas suas potencialidades era, para ele, mais que um pai. Fora o principal responsável pela sua ascensão meteórica. No auge, foi renegado por ordens do agente que lhe prometeu fama e fortuna. Pashi saiu do anonimato da multidão para restaurar uma amizade perdida, um perdão concentrado num gesto.
Kuamu, o promotor do combate, conversava com o árbritro. Secretamente, entregou-lhe um envelope, sem remetente ou destinatário, apenas dois algarismos: 1 e 9.


#8
Ricardo Moura Pais, Arraiolos
19-03-2010


Shinozuka atravessava a cidade, atribulada e feérica como sempre. Não parara sequer para uma refeição rápida, tinha urgência em chegar a casa. Um nervoso miudinho percorria o seu corpo magro e endurecido por anos de disciplina e rigor. Tinha urgência em chegar a casa.
No bolso do casaco aquele envelope subtilmente entregue por Kuamu fervia de inquietação e destilava mistério.
Depois do combate, das cerimónias e dos discursos, ainda se sentiu tentado a abri-lo e a acabar com a curiosidade que o consumia. Conteve-se. Entrava em casa e, sem cumprimentar a mulher, fechou-se no seu pequeno e despojado escritório. Quando abriu o envelope, a surpresa não se dissipou: um bilhete de avião, para o dia seguinte. O destino ficava a 19.000 Km de distância.


#9
Ricardo Moura Pais, Arraiolos
24-03-2010


Um amargo de boca. Como justificar a partida apressada, a bagagem arrumada à pressa, a ansiedade latente. Ao mesmo tempo uma vontade indócil de perceber.
As quase 27 horas de distância, as escalas na Europa, as esperas e as dúvidas, tinham um destino.
Como pronunciar esta palavra tão estranha, já incrustada no seu pensamento : Flo-ria-nó-polis.

#10
Nuno Grosso, Lisboa
26-03-2010


"Tudo diferente", pensava Shinozuka. O tempo quente e húmido era o que restava do mundo de onde viera há 27 horas e onde havia estado todas as outras horas antes dessas. Conseguira justificar a sua ausência com um convite de última hora para arbitrar um torneio internacional. E ali estava, num país que não conhecia para entregar um envelope a um homem que nunca vira: Aito Sato. Dele apenas sabia que foi um dos kyodai de uma importante família Yakuza, entretanto desaparecido. Recebera a carta de Kuamu que apenas lhe disse: "Depois disto a tua dívida está paga". Sato, Kuamu e ele. Todos intermediários. Operários de uma linha de produção, responsáveis por apertar um parafuso de uma peça que nunca viriam a conhecer. A inquietação voltou. Num impulso abriu o envelope. Nele encontrou duas coisas: uma carta onde se podia ler "Obrigado" e uma chave com uma placa e um número, 19.

LN

terça-feira, 21 de julho de 2009

AudioLivros - 2 Contos de Lispector

Deixo mais dois contos que gostei muito da Clarice Lispector:

Uma Esperança - Aqui (Este já tinha deixado no blog)

Restos do Carnaval - Aqui


LN

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dia Internacional da Amizade

Hoje é o dia da Amizade...
Deixo aqui um pequeno texto que tinha em casa,
e que achei bom mandar aos amigos neste dia. E também para os leitores do Blog , ou seja o Asdrúbal...
A amizade é assim:
É sentir o carinho,
é ouvir o chamado.
é saber o momento
de ficar calado.
Amizade é somar alegrias,
dividir tristezas.
é respeitar o espaço,
silenciar o segredo.
é a certeza da mão estendida.
A cumplicidade que não se explica,
apenas se vive!

(não sei de quem é isto, meu não é)
E como estou a ler o livro de contos de Clarice Lispector deixo também um pequeno conto.
Para ouvir o conto Felicidade Clandestina de Clarice Lispector;

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O ovo e a galinha - 3 - fim

"Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade , grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente."

"Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de viver apenas a minha vida e de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então - livre, delicado, sem mensagem alguma para mim - talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até à cozinha. Iluminando-a de minha palidez."
Clarice Lispector

Belo conto sobre ovos!
LN

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O ovo e a galinha - 2

"- Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é directamente uma escolhida. - A galinha vive como em sonho. Não tem senso da realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre a interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. - A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha é o ovo. - Ela não sabe se explicar: «sei que o erro está em mim mesma», ela chama de erro a sua vida, «não sei mais o que sinto» etc.
«Etc.,etc.,etc.» é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que nós chamamos de «galinha». A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro da galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedónia. A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende o telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa."
Clarice Lispector

Bom este conto, não é Asdrúbal ?
Amanhã ponho mais um pouco, que já sublinhei no livro,
LN

terça-feira, 7 de julho de 2009

O ovo e a galinha

Este conto é estranho, é muito divertido, vou deixar aqui umas passagens, será de quem??? ....

Adivinhem lá:) :})


"Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. - Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. - Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. - O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. - A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se. - O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. - Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superficie do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
Ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projéctil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. - Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa."

"O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. - O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. - O ovo é básicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedónia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedónia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. - O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. - O ovo por enquanto será sempre revolucionário."

"Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adoptado, usa-lhe o sobrenome. - Deve-se dizer «o ovo da galinha». Se se disser apenas «o ovo» , esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. - Em relação ao ovo , o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímel. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar rectangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria rectangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não pode é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer) Mas quem lutasse por torná-lo rectangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos põe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo."
O ovo e a galinha, Clarice Lispector

Não , não é um conto do Asdrúbal , como parece à primeira vista.
LN