quinta-feira, 22 de julho de 2010

As cidades Invisíveis, de Italo Calvino (3)

Em leitura, por acabar.

Kublai: Não sei quando tiveste tempo para visitar todos os países que me descreves. Eu acho que tu nunca saíste deste jardim.
Polo: Cada coisa que vejo e faço toma sentido num espaço da mente onde reina a mesma calma daqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo estalar das folhas. No momento em que me concentro a reflectir, dou comigo sempre neste jardim, a esta hora da tarde, na tua augusta presença, embora continuando sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos ou a contar os barris de peixe salgado que colocam no porão.
Koblai: Nem eu tenho a certeza de estar aqui, a passear por entre as fontes de pórfiro, ouvindo o eco dos repuxos, e não a cavalgar coberto de suor e de sangue à cabeça do meu exército, conquistando países que tu terás descrever, ou a cortar os dedos dos sitiantes que escalam as muralhas de uma fortaleza assediada.
Polo: Talvez este jardim só exista à sombra das nossas pálpebras cerradas, e nunca tenhamos dixado, tu de erguer poeira nos campos de batalha, e eu de contar sacos de pimenta em longínquos mercados, mas sempre que semicerramos os olhos no meio da algazarra e do tropel é-nos concedido o retirarmo-nos aqui vestidos de quimonos de seda, a considerar o que estamos a ver e a viver, a tirar as somas, a contemplar de longe.

(....)

Polo: Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente…

Kublai: E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós esta sombra silenciosa, esta conversa pausada, esta noite sempre igual.

Polo: A menos que se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existem porque pensamos neles nós os dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
Kublai: De que não existam fadiga, os os berros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.

Polo: E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem o arroz aleitando os recém-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
Kublai: Para dizer a verdade, eu nunca penso neles.

Polo: Então não existem.
Kublai: Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.

Polo: Então a hipótese é de excluir. Portanto, será verdadeira a outra: de que existem eles e não nós.
Kublai:
Assim demonstrámos que, se nós existíssemos, não existiríamos.
Polo: De facto, aqui estamos.

As cidades Invisíveis , Italo Calvino , Capitulo VII

e retirado no Blog Palavras (in)conscientes
LN

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