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quarta-feira, 11 de abril de 2012

é do CARALHO



Não deve haver na língua portuguesa uma palavra com um conceito tão abrangente como o caralho. É o termo de comparação mais lato que existe.

Uma coisa que alguém pode ser grande ou pequeno como o caralho, feio ou bonito, leve ou pesado, muito ou pouco, quente ou frio, perto ou longe... enfim, tudo é mensurável através do caralho. Para além das suas características físicas, o caralho também tem uma expressão metafísica: é o próprio inferno, lugar subterrâneo onde habitam as almas dos mortos.
Quando alguém menos vistoso morre , alguma coisa se destrói ou extravia, foi para o caralho; queremos mal a alguém, para onde o mandamos? O diabo, o próprio senhor dos infernos, pode ser o caralho. Não é por acaso que o diabo é tradicionalmente representado com um caralho pendurado e é conotado com a ira, o materialismo, a tentação e a paixão. Há, no entanto, uma variante mais leve, não implicando uma pena tão pesada, que é conhecida como o caraças. O caraças é o actual substituto do purgatório já caído em desuso até pela própria igreja. É um estado ou lugar em que as almas dos justos (e acrescento também todas as coisas vivas ou inanimadas) saídas deste mundo sem terem expiado completamente as suas faltas, acabam de expiá-las para serem admitidas na bem-aventurança (dicionário de Cândido Figueiredo pág 1139). Por exemplo , mandar alguém para o caraças implica que ele voltará mais puro depois de ter pago pelo seu erro. O caralho está omnipresente na nossa existência e, tal como o diabo, é o maior rival da autoridade divina. Há muitos anos na Rádio Renascença havia um jornalista que ia relatando um jogo de futebol extremamente emotivo, sem conseguir disfarçar a sua parcialidade em relação a uma das equipas. A dada altura, numa magistral manobra de ataque a bola é colocada nos pés do «seu» avançado que, depois de ter fintado o guarda-redes, fica somente com a baliza escancarada à sua frente. Tinha chegado o momento do auge e para isso bastava empurrar a bola para dentro da baliza. Completamente esbaforido com o calor da emoção , o relatador levantava-se num súbito impulso para gritar o que seria óbvio, quando inacreditavelmente o avançado atira a bola por cima da barra com um pontapé estúpido... O relatador, ainda incrédulo e completamente fora de si, pergunta para o ar, vezes sem conta, como é possível falhar aquele golo, até que conclui desanimado:

- É do caralho senhores ouvintes...

Claro que foi mandado embora no próprio dia. O que é que os senhores leitores pensam disto ... É, não é?

Livro Crónicas do futuro
João Melo


BLOG de continuação do Livro
http://joaomelo.blogspot.pt/


http://livrariautopia.blogspot.pt/2011/07/melo-joao-cronicas-do-futuro.html

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Um Mundo assente no cuidado" - Maria Lurdes Pintassilgo



Antologia de textos de Maria de Lurdes Pintassilgo

"Para um novo paradigma: um mundo assente no cuidado "

Ver texto de apresentação; No site SN Pastoral da Cultura

http://www.snpcultura.org/antologia_textos_maria_lourdes_pintasilgo.html

Fundação "Cuidar o Futuro" -
http://www.fcuidarofuturo.com/

domingo, 25 de março de 2012

Manifesto Branco (2)

Manifesto Branco

(continuação)

Talvez te pareça que já não podes ver com pureza, talvez te pareça que perdeste essa capacidade entre as coisas reais, como quem perde uma chave na rua, como quem perde a carteira. A diferença entre um sentido e uma chave ou uma carteira, por exemplo, é que um sentido pode materializar-se na palma da mão , não é feito de ferro.
Se precisares de renascer, renasce. É permitido renascer. Na verdade , nada é proibido.
Nada é proibido.
Pureza, repito a palavra apenas pelo prazer de articulá-la. Experimenta. Se te sentires ridículo ao fazê-lo, sabe que essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Ignora-a. Diz: Pu-re-za. Ao fazê-lo, é como se cantasses no duche ou no trânsito. Sorri.
O que é um deus? Por favor, não me faças perguntas dessas. Faz perguntas para dentro de ti. Só as tuas respostas são válidas. O sol ilumina tudo. Senta-te ao sol e sente-o. Assim, com aliterações e tudo o que mereces. Tu és tão natural como uma árvore. As preocupações que te dobram a pele do rosto e que te apoquentam os músculos das costas, os pesadelos com que acordas de manhã podem dissolver-se no lago imaginário que fores capaz de criar diante de ti. Repara, é sempre fim de tarde nesse lago, tem sempre paz e descanso. Está tudo feito. Lá longe, os filhos reencontram os pais e contam-lhes as histórias de mais um dia que terminou.

Tão bom. A claridade a passar-te entre os dedos como fios de areia. Bebe água nessa fonte, enche-te. É uma fonte infinita e tu tens a composição desse mesmo infinito. Podes beber infinitamente.
Pureza, repito agora para que se instale e se respire. Retira a maldade até das coisas más. Se te sentires ingénuo ao faze-lo, sabe que, uma vez mais, essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Se não conseguires evitá-la, ignorá-la, aceita a ingenuidade. A ingenuidade faz o sangue circular com mais fluidez do que o cinismo. A ingenuidade desconhece o colesterol. O cinismo é hipertenso.
Se apreciaste as referências iniciais à poesia portuguesa, aceita que a felicidade da ceifeira de Pessoa não é uma contradição do pensamento. Essa felicidade chega depois dele porque o pensamento inteligente dirige-se à felicidade. É possivel que não sejamos um nome, nem um corpo, nem uma alma. Tudo é possível, nada é impossível. Não deixes que te armadilhem de cálculos e labirintos. São demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. Avança no incandescente , na música sem muros.
Não existe horizonte nessa paisagem. Pureza, repete.
Tu tens direito à felicidade.
AGORA , VAI. Tens a Vida à espera de abraçar-te.

José Luis Peixoto
"Abraço"

Manifesto Branco (1)

Manifesto Branco

PUREZA, ESTA PALAVRA. Os poemas de Sophia, os poemas de Eugénio, os poemas de Fiama, as crianças. Endeusa esta palavra. Uma palavra pode ser um deus, como um rio pode ser um deus (Ganges). Uma palavra pode ser um deus, como o invisivel pode ser um deus. Um significado pode ser um deus. Sorri.
Se eu descrevesseagora a pureza iria construir uma ordem de palavras diferente da tua e diferente da minha amanhã, ontem. Esta é uma certeza evidente. É assim porque eu e tu somos diferentes, porque eu agora sou diferente de eu amanhã, eu ontem. Os filósofos tiraram essas conclusões antes da electricidade. Não há um grande mistério nessa ideia apesar de ser a tentação de um poço e, já sabes, os poços servem sobretudo para cair. Não deixes que esse pormenor te impeça de nada.
Pureza , aceita essa palavra nos teus gestos, em cada uma das tuas palavras e, aos poucos, chegará ou regressará aos teus pensamentos. Nuvens e sombras hão-de dizer-te que não é assim tão fácil, tentarão desencorajar-te com todos os tipos de veneno e dependerás apenas de ti. Haverá rostos a transfigurar-se, vozes a adensar-se de noite e de morte, pedidos irrazoáveis, e só poderás contar contigo, com o teu corpo necessariamente magro, com a tua força a parecer-te insuficiente. Não há limites para a forma daquilo que se pode atirar no teu caminho, uma árvore, uma bomba, a polícia, a tua própria mãe. Continuar a enumerar essas dificuldades seria ceder perante elas, dar-lhes tamanho. Deves ignorá-las. Se lhes deres força, terão força. Deves cobri-las de branco, responder-lhes com aquela palavra-deus.
Pureza.
Define essa palavra apenas dentro de ti. Utiliza apenas os teus materiais, as tuas próprias palavras. Demoraste tanto a aprendê-las, pensa nisso. Deste-te a tantos trabalhos e a tanta vida. Talvez tenhas tido filhos em nome de definições, talvez tenhas amado e perdido, talvez tenhas passado meses a procurar diariamente alguma coisa que te pareceu que não encontraste, mas acabaste por encontrar qualquer outra coisa que te moldou e que te fez chegar aqui, com estes significados unicamente teus. Recolhe tudo isso, considera tudo isso. É essa a tua bagagem, as tuas ferramentas, tu és isso.

(...continua)
José Luis Peixoto
"Abraço"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Recordações de Familia 3



As Grandes Vencedoras do Raly do Sporting de 1986 - (4 - 10 - 1986)



Eis aqui a foto da entrega do troféu na categoria Mulheres , de um Raly -Paper do Sporting.


Em que a condutora era a Paula Alexandra ; e tinha uma equipa de acompanhantes constituida pela Ana , pelo Henrique e pelo Luis ; ?? Guilherme ? não sei se também ia.


Em que durante a prova o Henrique teve de ser evacuado para o Hospital, mas a corrida não podia parar!!!


Rumo a uma brilhante vitória ....


Grandes feitos e grandes condutoras tem a familia

:)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DEUS anda cá , texto de José Luis Peixoto



Afinal, não era preciso chamá-lo. Ja cá estava.

Eles dizem que Deus vê tudo o que fazemos. Vê o obsceno, vê o repugnante, vê o miserável. Deus vê o invisivel. Se existir céu e inferno, fico contente por ti , mas, por mim, sinto um certo receio. Repara , eles não dizem que Deus vê algumas das coisas que fazemos, não dizem que Deus vê apenas aquilo que é mais interessante ou susceptivel de ser considerado na equação céu/inferno. Não, eles dizem que Deus vê tudo o que fazemos: tudo. Quando dormimos , Deus olha pacientemente para nós. Já olhei para ti enquanto dormias. Compreendo que Deus não se canse de fazê-lo. Também quando esperamos , Deus assiste à nossa espera. Também quando lavamos o carro numa estação de serviço.
Também quando passeamos no jardim ao domingo.
Ainda assim , quero pedir-te que não imagines Deus como um velho reformado, sem vida própria , submerso em memórias, sósinho, sentado num cadeirão gasto, a ver televisão numa sala com os estores corridos. Nada é assiim tão simples. Nem mesmo esse velho reformado é assim tão simples. Deus não vê apenas, Deus sabe. Ao contrário de mim, Deus não se detém perante o teu rosto, tentando perceber se queres ou não queres, se gostaste ou não gostaste, tentando perceber o que significa aquilo que dizes e aquilo que insistes em calar. Deus sabe a distância precisa entre a ponta do teu nariz e o z desta palavra: nariz. Sabendo tudo , Deus sabe muita informação desnecessária. Sabe tudo o que sabemos e tudo o que não sabemos. Quando estamos errados, Deus sabe detectar o erro, sabe corrigi-lo e sabe todas as possibilidades de resolução do problema, sem erro, com erro e com todos os erros possíveis.
Deus é muito mais exacto do que a matemática.
Melhor do que nós, Deus consegue entender a razão de cada gesto porque conhece todos os pormenores da sua história e relaciona-os através da verdade. Deus consegue ver o passado com a mesma nitidez absoluta com que olha o presente. Nas grandes multidões, nos apertos antes da entrada nos estádios, nos concertos, eles dizem que Deus está lá a seguir cada pessoa e, para a atenção de Deus, cada um desses indivíduos é um mundo inteiro e completo. Eles dizem que Deus só pensa em nós. Passa todo o tempo a ver-nos ppor dentro e por fora. Testemunha cada episódio da luta que travamos com os nossos instintos, com os nossos impulsos e com os impulsos que surgem no nosso caminho. O nosso caminho não é uma estrada. Não sabemos o que é. Às vezes , parece que Deus nos colocou aqui como ratinhos num labirinto e, enquanto tira notas, espera que encontremos a saída. Nascemos um dia.
Chegámos de onde não sabíamos nada.
E, consuante o que encontrámos, fomos aprendendo. Eles dizem que Deus assistiu a todos esses momentos. A sua mente não divagou, não se desinteressou. Eles dizem que Deus nos vê desde o início, desde quando não sabiamos nenhuma palavra. Eles dizem que Deus nos viu nascer. Eu também te vi nascer. Essa é uma das experiências que partilhei com Deus. Sabes, apesar de estarem quase a passar doze anos sobre esse momento, também eu o consigo ver ainda com nitidez absoluta. Acredito que nunca se apagará de mim. Ao contrário de Deus, eu sempre andei longe, o meu olhar foi espaçado, mas acredita, filho, nunca te esqueci, nunca deixaste de ser parte de mim. Não foi por querer que não pousei o cobertor sobre o teu peito antes de dormires, não foi por querer que nã brinquei contigo assim que acordaste. Demorará até que entendas, mas esperarei o tempo que for necessário.
Se Deus é pai como eles dizem, então deixa-me contar-te um pouco do amor que Deus tem por ti:
Deus acredita que o amor que sente por ti é maior do que ele próprio, Deus acredita que os lugares onde está não são todos porque tem a certeza de que o amor que sente por ti é maior do que todos esses lugares, Deus acredita que não sabe tudo porque o amor que sente por ti é maior que tudo.
Sendo teu pai, Deus também é teu filho, filho.

José Luis Peixoto
do livro "Abraço"

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Lixo", frases de livros

- Não olhes assim para mim! Eu sei de onde te vêm essas ideias...
E como se gaguejasse, nervoso, como se desistisse a meio do que tinha para dizer, como se não desistisse logo a seguir, segurou-a pelo pulso, apertou-lhe o pulso e começou a falar, como se falasse para si próprio, em frases que interrompia e retomava e continuava e interrompia.

Puxou a Maria pelo. Pulso e levou-a pelo corredor e entraram no quarto onde dormiam todas. As noites e apontou. Para a estante cheia de romances. De amor que a Maria. Guardava desde menina. E que organizava por. Ordem alfabética. e todas as histórias. Que conhecia de cor e que seria capaz de contar. Com todos os pormenores e. Apontou para a estante cheia. E limpa e sem pó. E disse:
- A culpa. É deste lixo. A culpa. Toda a culpa. É deste lixo.
E nervoso. Engasgando-se nas. Palavras. E como se. Gaguejasse. Atirou um braço de encontro à estante e derrubou. Todos os romances de amor sobre. A colcha da cama e como. Se estivesse louco e como se estivesse. Louco. Começou a rasgá-los com. As duas mãos enquanto repetia:
- Lixo. A culpa é toda. Deste lixo.
Sobre a cama, um monte de páginas rasgadas e de capas rasgadas, títulos: sonhos de , paixão casamento na, primavera as chamas do coração mais, forte do que o preconceito vitória, do destino apaixonada pelo homem, certo rapariga e mulher amar pela primeira, vez o desconhe, cido irresistível flo, res demasia, do tarde pa, ra além do, desejo so, rriso c, rue, l am, a, nhec, er, de e, mo, ç, õe, s.
E o marido da Maria , por fim, parou os braços. A respiração rápida enchia-lhe e esvaziava-lhe o peito.
E, através das lágrimas que pendiam das pestanas da Maria, o monte de papéis rasgados sobre a cama: Sabrinas rasgadas, Biancas rasgadas, Júlias rasgadas: era um vulto informe e brilhante.

Cemitério de pianos
José Luis Peixoto
pág. 191

domingo, 10 de julho de 2011

memórias, leituras , frases

" Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma difernça entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento. Quando me lembro de ter quatro anos e de estar a brincar no quintal, não sei onde terminam as imagens que os meus olhos de quatro anos viram e que permanecem até hoje comigo, ou onde terminam as imagens que inventei sempre que tentei lembrar-me dessa tarde. Era uma tarde que passava entre os ramos dos pessegueiros."

Cemitérios de Pianos
José Luis Peixoto
pág. 145

segunda-feira, 13 de junho de 2011

abanei a cabeça afirmativamente


" Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim, tinha um redemoinho infinito de música infinita."

frase do livro,
Cemitério de Pianos

José Luis Peixoto

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"Para Sempre", Vergilio Ferreira



" Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta - sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros - é a História que se diz? abro a porta do quintal.

....

Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores. Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro - o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte. Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo pelo caminho.

Se ao menos uma breve ideia. Não tenho.

Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a faz viver."


"Para Sempre"; Vergílio Ferreira


Obra Completa, Edição Quetzal

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Revolucionário, poema


O Revolucionário


Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


Sophia de Mello Breyner Andresen




No Livro "Salgueiro Maia , Um homem da Liberdade",


António de Sousa Duarte

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Fotos ; parastasis

PARASTASIS:
Acto ou acção de abstrair uma imagem ou representação do invariável fluxo do tempo , em que o original e a sua réplica, por um momento, coexistem na mesma dimensão espacial e temporal.

Oxford Latin Dictionary,1856
"A Matemática do Amor"; Emma Darwin
Algumas fotografias do Blog Fotografares do Renato Monteiro

Fotos inesperadas: Padrão de circunferências pequeninas

Rosas do mar

O Ferry que passa

A ler para o rio

O céu e as árvores

LN

sábado, 5 de fevereiro de 2011

É um dos primeiros daguerreótipos

É um dos primeiros daguerreótipos , com mais de cento e cinquenta anos. Geralmente explico como se trata de um processo positivo, em que a placa é exposta directamente, de tal modo que cada um é único. Se o vidro se partisse, perder-se-ia para sempre. O estojo é de couro velho, como uma caixa de jóias. O fecho está um bocado perro dos anos, mas a tampa abre-se facilmente. Lá dentro, a placa de vidro está acomodada numa almofadinha de veludo negro. Se o virar ligeiramente para a luz, a imagem brilha e cintila, tão exacta, tão brilhante e tão escura, que o momento em que foi tirada parece viver dentro do vidro. O sol toca os pilares e chaminés de Kersey Hall e lampeja entre as escuras árvores do final do Verão. A sua luz espalha-se pela relva, acaricia a curva dos degraus, passa pela porta entreaberta para onde se encontra uma figura com um vestido comprido. Foi então, nesse momento, que o obturador se abriu, agarrou um momento da luz e da escuridão, e o plasmou nesta placa de vidro, fixando o sol e as sombras desses poucos segundos para sempre. E o sol continuou a mover-se e levou com ele o dia, enquanto a placa fixou aquelas sombras e as manteve, e as levou para outros sítios e para outros tempos antes de ser outra vez encontrada. Um desses tempos foi o meu.

"A Matemática do Amor", Emma Darwin



LN

sábado, 24 de julho de 2010

As cidades Invisíveis, de Italo Calvino (4)

O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.
Disse:
— É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.

E Polo:
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos.

Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

LN

sexta-feira, 23 de julho de 2010

As Cidades de Calvino, Esmeraldina

As cidades e as trocas (5)

Em Esmeraldina, cidade aquática, uma rede de canais e uma rede de ruas sobrepõe-se e entrecruza-se. Para ir de um lugar a outro, pode-se sempre escolher entre o percurso terrestre e o de barco: e, como em Esmeraldina a linha mais curta entre dois pontos não é uma reta mas um ziguezague que se ramifica em tortuosas variantes, os caminhos que se abrem para o transeunte não são dois mas muitos, e aumentam ainda mais para quem alterna trajetos de barco e trasbordos em terra firme.
Deste modo, os habitantes de Esmeraldina são poupados do tédio de percorrer todos os dias os mesmos caminhos. E não é tudo: a rede de trajetos não é disposta numa única camada; segue um sobe-desce de escadas, bailéus, pontes arqueadas, ruas suspensas. Combinando segmentos dos diversos percursos elevados ou de superfície, os habitantes se dão o divertimento diário de um novo itinerário para ir aos mesmos lugares. Em Esmeraldina, mesmo as vidas mais rotineiras e tranqüilas transcorrem sem se repetir.
A maiores constrições estão expostas, como em todos os lugares, as vidas secretas e aventurosas. Os gatos de Esmeraldina, os ladrões, os amantes clandestinos, locomovem-se pelas ruas mais elevadas e descontínuas, saltando de um telhado para o outro, descendo de uma sacada para uma varanda, contornando beirais com passo de equilibrista. Mais abaixo, os ratos correm nas escuras cloacas, um atrás do rabo do outro, juntamente com os conspiradores e os contrabandistas: espreitam através de fossos e esgotos, escapam por interstícios e vielas, arrastam de um esconderijo para o outro cascas de queijo, mercadorias ilícitas e barris de pólvora, atravessam a compacta cidade perfurada pela rede de covas subterrâneas.

Um mapa de Esmeraldina deveria conter, assinalados com tintas de diferentes cores, todos esses trajetos, sólidos ou líquidos, patentes ou escondidos.

Mas é difícil fixar no papel os caminhos das andorinhas, que cortam o ar acima dos telhados, perfazem parábolas invisíveis com as asas rígidas, desviam-se para engolir um mosquito, voltam a subir em espiral rente a um pináculo, sobranceiam todos os pontos da cidade de cada ponto de suas trilhas aéreas.

As cidades Invisíveis, Italo Calvino, Capitulo VI

LN

quinta-feira, 22 de julho de 2010

As cidades Invisíveis, de Italo Calvino (3)

Em leitura, por acabar.

Kublai: Não sei quando tiveste tempo para visitar todos os países que me descreves. Eu acho que tu nunca saíste deste jardim.
Polo: Cada coisa que vejo e faço toma sentido num espaço da mente onde reina a mesma calma daqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo estalar das folhas. No momento em que me concentro a reflectir, dou comigo sempre neste jardim, a esta hora da tarde, na tua augusta presença, embora continuando sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos ou a contar os barris de peixe salgado que colocam no porão.
Koblai: Nem eu tenho a certeza de estar aqui, a passear por entre as fontes de pórfiro, ouvindo o eco dos repuxos, e não a cavalgar coberto de suor e de sangue à cabeça do meu exército, conquistando países que tu terás descrever, ou a cortar os dedos dos sitiantes que escalam as muralhas de uma fortaleza assediada.
Polo: Talvez este jardim só exista à sombra das nossas pálpebras cerradas, e nunca tenhamos dixado, tu de erguer poeira nos campos de batalha, e eu de contar sacos de pimenta em longínquos mercados, mas sempre que semicerramos os olhos no meio da algazarra e do tropel é-nos concedido o retirarmo-nos aqui vestidos de quimonos de seda, a considerar o que estamos a ver e a viver, a tirar as somas, a contemplar de longe.

(....)

Polo: Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente…

Kublai: E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós esta sombra silenciosa, esta conversa pausada, esta noite sempre igual.

Polo: A menos que se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existem porque pensamos neles nós os dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
Kublai: De que não existam fadiga, os os berros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.

Polo: E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem o arroz aleitando os recém-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
Kublai: Para dizer a verdade, eu nunca penso neles.

Polo: Então não existem.
Kublai: Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.

Polo: Então a hipótese é de excluir. Portanto, será verdadeira a outra: de que existem eles e não nós.
Kublai:
Assim demonstrámos que, se nós existíssemos, não existiríamos.
Polo: De facto, aqui estamos.

As cidades Invisíveis , Italo Calvino , Capitulo VII

e retirado no Blog Palavras (in)conscientes
LN

sábado, 3 de julho de 2010

As cidades de Calvino (2)





cidades invisíveis

DIOMIRA * DOROTEIA * ZAIRA* ANASTACIA * TAMARA* ZORA * DESPINA * ZIRMA * ISAURA * MAURILIA* FEDORA * ZOE * ZENOBIA * EUFEMIA * ZOBEIDE * IPASIA *ARMILA * CLOE * VALDRADA * OLIVIA * SOFRONIA * EUTROPIA * ZEMRUDE * AGLAURA OTAVIA * LALAGE * ERCILIA * BAUCI * LEANDRA * MELANIA * ESMERALDINA * FILIDE * PIRRA * ADELMA * EUDOXIA * MORIANA* CLARISSE * EUSAPIA * BERSABEIA * LEONIA * IRENE * ARGIA *
TECLA *TRUDE OLINDA * LAUDOMIA * PERINZIA * RAISSA * PROCOPIA * ANDRIA * MAROSIA * CECILIA * PENTESILEIA * TEODORA * BERENICE

Ocultas, delgadas, contínuas, são as cidades imainadas de Calvino, como parte do diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan, a falar sobre: a memória, o desejo, os símbolos, as trocas, os olhos, o nome, os mortos e o céu.

Cidades, sempre femininas, também as reais:

Cambaluc, Constantinopla, Jerusalém, Samarcanda, Granada, Lübeck, Timbuctu, Nefta, Urbino, Cuzco, Novgorod, Lhassa, Jerico, Ur, Cartagena, Tróia, San Francisco, Amsterdam, New York...

E como diria Polo, segundo a imaginação de Calvino:

“- De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.
- Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge.”

No Blog Ando sempre em boa companhia
LN

sexta-feira, 2 de julho de 2010

As Cidades de Calvino, Cloé

As Cidades Invisíveis

As Cidades e as Trocas 2

Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.
Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas, também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda a sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. Passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos; uma anã; duas gêmeas vestidas de coral. Corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possíveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher-canhão. Assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.
Existe uma contínua vibração luxuriosa em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim.


Ítalo Calvino

No Blog Delirios e Desatinos
LN

terça-feira, 22 de junho de 2010

As cidades de Calvino , Bauci

imagem no site Obvious


AS CIDADES E OS OLHOS
"BAUCI"


Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.

Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

no site OBVIOUS

LN

segunda-feira, 21 de junho de 2010

As cidades de Calvino

quadro de Nora Sturges
retirado do site da revista Obvious

Dois excertos de Cidades Invisíveis

- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim:
- Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco Polo:
- O Algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.



Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
- A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai kan permanece silencioso, reflectindo.
Depois acrescenta:
- Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
- Sem pedras não há o arco.


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LN